Hiperfoco de jovem autista no Paraná inspira criação da ‘Capivaratípica’; personagem virou negócio e meio de conscientização | Campos Gerais e Sul

Hiperfoco de jovem autista inspira negócio no Paraná: ‘Capivaratípica’

O hiperfoco é uma das características das pessoas diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O termo é usado para descrever o estado de concentração intensa em um determinado assunto.

Essa característica ajudou o jovem Bruno Gustavo Richards, de 21 anos, que possui diagnóstico de microcefalia e TEA, a criar a personagem “Capivaratípica”. A história do animal – e do próprio artista – saíram do papel e inspiraram a criação de um negócio em família.

O nome do personagem faz alusão ao termo “pessoas atípicas” – aquelas cujo desenvolvimento neurológico ou intelectual se diferem do que é considerado padrão.

Os desenhos hoje estampam camisetas, canecas, chaveiros, bichinhos de pelúcia e outros itens vendidos em feiras de Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, pelo jovem e pela mãe, Eliane Richards. Veja o vídeo acima.

Bruno Richards tem 21 anos — Foto: Valdecir Galvan/RPC

Eliane conta que o hiperfoco do filho pelo animal surgiu após ele ver uma capivara sozinha no Lago de Olarias, um dos principais parques da cidade.

“Ele ficou com isso na cabeça, porque a essência da capivara é andar em bando. Quando chegamos em casa ele falou: ‘Ela é sozinha porque não quer estar com um bando ou o bando excluiu ela por ela ser diferente?'”, lembra.

Bruno conta que nunca havia visto uma capivara e ficou com dó do animal, porque acredita que ninguém deva ficar sozinho.

“Tem que chamar as pessoas para participarem das coisas, e não deixarem elas sozinhas”, afirma.

Bruno Richards criou a ‘Capivaratípica’ — Foto: Arquivo pessoal

A partir daquele momento, Bruno criou um hiperfoco pela capivara solitária e começou a desenhá-la em diversos pontos da cidade com “amigos”, como pombas, cachorros, gatos e até trabalhadores da coleta seletiva.

Para apoiar o filho, a mãe transformou os desenhos em produtos. As obras são vendidas não apenas com o intuito comercial, mas também pensando na conscientização sobre o assunto.

“Doeu muito em mim, porque, como mãe, às vezes a gente tem pessoas especiais, superdotadas, com potencial, capacidade e sensibilidade do nosso lado e a gente não sente a dor dele. Então, me doeu de eu não sentir isso, a dor que incomodou ele. Vi que tinha que fazer algo em relação a isso. Ele sentiu a dor dela e eu senti a dor dele”, afirma Eliane.

Para ela, a Capivaratípica é muito mais que um personagem ou um negócio.

“Não é sobre autismo, sobre pessoas especiais. É sobre empatia, olhar além. Olhar com carinho as pessoas e quem está ao seu lado”, avalia.

Itens são vendidos em feiras de Ponta Grossa — Foto: Arquivo pessoal

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado, principalmente, pelas dificuldades de comunicação e interação social e pela presença de padrões de movimentos restritos e repetitivos. Pessoas no espectro têm uma forma diferente de vivenciar experiências, agir e interpretar o mundo.

O Ministério da Saúde explica que o TEA também é caracterizado pela alteração das funções do neurodesenvolvimento, que podem englobar ainda hiperfoco para objetos específicos e restrição de interesses.

A psicóloga Cecilia Peres Monteiro explica que o hiperfoco pode acontecer em diversos contextos, como animais, músicas, livros, filmes ou ciências, por exemplo.

“No TEA isso acaba sendo extremamente reforçador e é um recurso muito poderoso, porque a pessoa acaba se tornando especialista em algum assunto; ela descobre tudo o que dá para descobrir. […] Pode ser algo muito aleatório, que chame a atenção sem muita explicação, ou algo que já tem dentro da família. É muito variado”, detalha.

A psicóloga ressalta que o hiperfoco está direcionado à sensação de prazer, porque vem do córtex pré-frontal do cérebro – área ligada à atenção. Como durante as atividades relacionadas ao hiperfoco muitas vezes é liberada dopamina, conhecido como “hormônio da felicidade”, há a sensação de prazer.

Por isso, Cecilia analisa ser interessante que o objeto do hiperfoco tenha alguma utilidade – como no caso do Bruno, por exemplo.

Psicóloga explica o que é hiperfoco

O hiperfoco não é exclusividade de pessoas com autismo, lembra a psicóloga. Cecilia cita que a condição também é muito comum em pessoas com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade – e também pode ter um lago negativo.

“É importantíssimo para a aprendizagem, para o desenvolvimento, mas, como tudo, tem benefícios e malefícios. Por exemplo, têm crianças que entram num estado de hiperfoco que elas não escutam mais nada ao redor delas. Tudo o que não diz respeito àquele assunto fica irrelevante naquele momento”, explica.

Por isso, um certo controle deve ser buscado para que atividades importantes não deixem de ser realizadas – como alimentação, sono, estudos e socialização, por exemplo.

“É comum que os assuntos vão variando, e é até importante que se estimule isso também. Ficar apegado a um assunto só pode ser muito restrito e atrapalha a parte social, pois pode ser que ela não consiga conversar sobre mais nada, a não ser aquele assunto. Então, é importante que a gente vá estimulando outros interesses da pessoa também”, afirma Cecilia.

A profissional possui um caso de TEA na família. O irmão, Bernardo Peres Monteiro, tem 26 anos e hiperfoco em matemática – e, por isso, estuda muito sobre o assunto.

“É um estado mental”, comenta.

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