‘Mulheres estão loucas atrás dos homens’ e ‘assediam’, diz desembargador durante julgamento no Paraná | Brasil

O desembargador Luis César de Paula Espíndola, que preside a 12ª Câmara Cível Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), disse ao longo de uma sessão nesta quarta-feira (3) que “as mulheres estão loucas atrás dos homens” e, que, hoje em dia, “são elas quem estão assediando”. Tudo isso enquanto a corte julgava a continuidade de uma medida protetiva em favor de uma adolescente de 12 anos que denunciou assédio de um professor de educação física, absolvido na esfera criminal e administrativa.

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‘Mulherada está louca atrás de homem’, diz desembargador durante julgamento no Paraná

— Se a vossa Excelência sair na rua, hoje em dia, quem está assediando, quem está correndo atrás de homens são as mulheres, porque não tem homem. Esse mercado está bem diferente. Hoje em dia, o que existe, essa é a realidade, as mulheres estão loucas atrás dos homens, porque são muito poucos — declara Espíndola.

Em partes, o discurso foi motivado por uma reação às falas de outra desembargadora, que, antes, o questionou por ter se manifestado contra a manutenção de medidas protetivas, sob a justificativa de que hoje em dia qualquer coisa é considerada assédio e que prejudicaria a carreira do professor. Para o magistrado, a declaração da colega representa um “discurso feminista desatualizado”.

— É só sair à noite. Eu não saio muito à noite, mas eu sei, tenho funcionárias, tenho contato com o mundo. Nossa, a mulherada está louca atrás do homem. Muito louca para levar um elogio, uma piscada, uma cantada educada, porque elas é que estão cantando, elas que estão assediando, porque não tem homem. Essa é a nossa realidade hoje em dia, não só aqui no Brasil — continuou Espíndola.

Procurado, o TJ-PR informou que o vídeo com a transmissão da sessão foi retirado do ar para “preservar as partes envolvidas”, considerando que o processo tramita em segredo de justiça. Além de compartilharem uma nota de esclarecimento, em que afirmam discordar das falas do magistrado e que ele será investigado.

“O Tribunal de Justiça do Estado do Paraná vem a público esclarecer que não endossa os comentários feitos pelo Desembargador Luis Cesar de Paula Espindola durante sessão da 12ª Câmara Cível do Tribunal no dia 3 de julho de 2024. Já foi aberta investigação preliminar no âmbito desta corte, com base na Resolução 135 do CNJ, e o desembargador terá prazo de 5 dias para se manifestar.”

Outra nota, agora assinada por Espíndola, também foi publicada no portal do TJ-PR. No texto, ele pondera que não teve intenção de menosprezar o comportamento feminino, e se diz um defensor da igualdade entre homens e mulheres.

“Esclareço que nunca houve a intenção de menosprezar o comportamento feminino nas declarações proferidas por mim durante a sessão da 12ª Câmara Cível do Tribunal, afinal, sempre defendi a igualdade entre homens e mulheres, tanto em minha vida pessoal quanto em minhas decisões. Lamento profundamente o ocorrido e me solidarizo com todas e todos que se sentiram ofendidos com a divulgação parcial do vídeo da sessão”, encerra o desembargador.

OAB: declaração estarrecedora

A Ordem dos Advogados do Brasil do Paraná (OAB-PR) emitiu uma nota de repúdio e definiu as declarações como estarrecedoras.

“Além de discriminatórias, (as manifestações) expressam elevado grau de desconhecimento sobre o protocolo para julgamento com perspectiva de gênero, de cumprimento obrigatório pelos magistrados e tribunais. Revelam ainda profundo desrespeito para com as mais recorrentes vítimas de todo o tipo de assédio: as meninas e mulheres brasileiras”, pontua o documento.

Não é a primeira vez que Espíndola se envolve em uma polêmica relacionada as mulheres. Segundo a Folha de São Paulo, ele foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), em março do ano passado, à pena de detenção de quatro meses e 20 dias, em regime aberto, por lesão corporal em contexto de violência doméstica contra a irmã e a mãe. A maioria da corte, no entanto, substituiu a pena por prestação de serviços à comunidade e determinou o retorno ao cargo.

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